HOMEOPATIA, PSICOLOGIA JUNGUIANA E RELIGIÃO Postado em

HOMEOPATIA, PSICOLOGIA JUNGUIANA E RELIGIÃO

HOMEOPATIA, PSICOLOGIA JUNGUIANA E RELIGIÃO

Floresça

Filósofo não responde, questiona. Como filósofa tenho sempre muitas perguntas e poucas são as respostas que me satisfazem, porque sempre envolvem muitas questões que se abrem frente a um novo conhecimento. A pergunta que mais me inquieta é sobre o que é a vida. Cientificamente não há resposta, nenhuma possibilidade de responder essa questão essencial resiste a uma argüição. Se a vida ainda é uma incógnita, a morte é o grande mistério que cientista algum ousou explicar.

         Dentre todos que tentaram falar sobre o grande paradoxo que é a vida e a morte, Jung foi aquele que melhor descortinou a névoa, quando logo após sofrer um enfarte, em fase de restabelecimento, responde a uma ex-paciente que se encontrava com doença grave e compartilha com ela sua experiência de quase morte: "Como a senhora sabe, o anjo da morte derrubou-me também e quase conseguiu riscar o meu nome de sua lista de vivos. Desde então fiquei quase inválido e venho recuperando-me devagar, muito devagar, de todas as setas que me furaram de todos os lados. Felizmente minha cabeça não foi atingida e pude esquecer de mim mesmo em meu trabalho científico. Considerando-se em geral, minha doença foi uma experiência muito válida; ela me deu a oportunidade inestimável de olhar por trás do véu. A única dificuldade é livrar-se do corpo, ficar nu e vazio do mundo e da vontade do eu. Quando se pode desistir da louca vontade de viver e quando se cai aparentemente num nevoeiro sem fundo, então começa a vida verdadeiramente real com tudo o que foi intencionado e nunca alcançado. É algo inefavelmente grandioso.(...)Vista de fora e enquanto estivermos do lado de fora, a morte é a coisa mais terrível. Mas, uma vez dentro, experimenta-se um sentimento tão forte de totalidade, paz e realização que não se deseja voltar. Realmente, durante o primeiro mês após a primeira visão sofri de negras depressões porque sentia que estava me recuperando. Era como se estivesse morrendo. Eu não queria viver e retornar para esta vida fragmentária, restrita, estreita e quase mecânica, onde se estava sujeito às leis da gravidade e coesão, preso num sistema tridimensional e turbilhonado com outros corpos na torrente impetuosa do tempo. Lá havia plenitude, significando satisfação, movimento eterno (não movimento no tempo)."[1].

           Felizmente Jung incorporou essa vivência, essa experiência mística de plenitude, totalidade e unidade, quando neste episódio teve uma visão cósmica. Teve uma compreensão ampliada da vida e da morte, e ao retornar e integrar esta experiência pode elaborar uma compreensão da vida como "um breve episódio entre dois grandes mistérios que, de fato, se resumem em apenas um"[2], esse intervalo se refere ao ego, porque o Self vive o eterno e o infinito. O ego nasceu, o Self é a priori. O ego está limitado a um tempo, o da sua existência, e a um espaço, que é o seu corpo em relação ao seu meio. O Self transcende a limitação da consciência, quando devidamente encontrado rompe as esferas limitantes da existência humana, elimina a angústia vital, porque compreende que a vida está muito além das suas experiências temporais e espaciais.

         Quando o ego cede a direção da carruagem da vida ao Self e atua como seu co-piloto, auxiliando-o na realização da plenitude da vida, na realização do mito do significado de nossas vidas, adentramos de forma consciente ao nosso processo de individuação, não criamos resistências egóicas e, assim, não adoecemos, e se doentes, nos recuperamos. Em termos homeopáticos cooperamos com o nosso mais alto fim existencial. Buscamos a realização da causa finalis de cada um de nós, que é única e singular.

         Singular não pode ser entendido como particular. Temos particularidades que uma a uma nos distinguem dos outros seres humanos, assim é que como ser humano temos particularidades próprias da espécie e também particularidades únicas que nos distinguem dentro da própria espécie; como mulher participo do gênero feminino, mas dentro dele possuo particularidades únicas; como mãe compartilho da experiência materna de todas as mães, mas a minha maternagem é particularmente especial e única dentre todas as mães, essas somatórias de particularidades, que ao mesmo tempo que me possibilitam compartilhar grupos me distinguem dentro de cada qual, formam minha singularidade.

         O singular que eu sou pede uma realização plena, um sentido único. A individuação é isso, realizar o processo de nos tornarmos plenos e únicos. Porém o ego, via de regra, age como um bloqueio a esse processo, o Self reage pedindo sua realização, assim é que podemos ter sonhos sincronísticos, ocorrências sincronísticas, ou adoecimentos, e tudo dependerá do nosso procedimento frente a esses eventos. Parece simples, mas é muito complexo porque quem entende e racionaliza é o ego, e como é ele o agente do boicote, teremos sempre muita dificuldade de entendermos que somos os próprios obstáculos de nossa realização. Até aqui estamos no plano físico-psicológico, quando agregamos o plano espiritual, que é aquele que confere sentido a todas as coisas, a complexidade se avulta.

         Há um ditado brilhante que diz: "Em Deus tudo, sem Deus nada". Todos os fatos de nossa vida terão a marca de nossa fé, ou dá ausência dela. Mestre Eckhart tem um pensamento sobre isso: "A qualidade da vida de um homem depende da qualidade de seus deuses, das formas que o Divino toma frente a ele. Em outras palavras: a qualidade da vida de um homem depende das exigências que sua alma se faz quando admira a face de seu Deus". Todos os alunos que eu já tive conhecem esse pensamento do genial mestre, em todas as minhas apostilas ele se faz presente, porque acredito que encerra a maior de todas as verdades da vida.

         Jung compartilha dessa idéia quando escreve: "O homem precisa apenas tomar consciência de que está contido na própria psique e que nem mesmo em estado de demência poderá ultrapassar esses limites. Também deve reconhecer que a forma de manifestação de seu mundo ou de seus deuses depende, em grande parte, de sua própria constituição espiritual".[3] Essa relação de co-dependência do interior com o exterior regula nossa qualidade de vida, ou seja, nosso estado de humor, nossa segurança ou insegurança frente ao novo, determina nossa saúde e nosso adoecimento.

         A qualidade de nossa vida está em ligação extrema com a qualidade de nossos deuses. Assim é que um deus autoritário, guerreiro, juiz, trará às nossas vidas a marca da agressividade, da intolerância, do juízo de valor, do medo, da culpa, da submissão, etc. É um deus de adoecimento e morte. Um deus masculino e com esses atributos, nos fará projetar[4] esses mesmos atributos nos homens de nossa sociedade, relegando as mulheres a um plano secundário e inferior.

         Um deus pai, amoroso, tolerante, capaz de perdoar e acolher como consta na parábola do filho pródigo, por exemplo, faz com que projetemos essas mesmas qualidades nos homens de nossa sociedade, e teremos, então, homens capazes de acolhimento, proteção, afeto, bem diferentes dos homens de uma sociedade machista, as mulheres terão uma proteção patriarcal e uma segurança que as tornará menos oprimidas do que nas sociedades do exemplo anterior, só que desta vez serão infantilizadas e incapacitadas de evoluírem e participarem da sociedade de maneira igualitária.

         Uma deusa poderosa e destruidora como Kali, que tem a língua vermelha para fora da boca pedindo por sangue, que porta um colar de crânios humanos cortados pela sua espada e um cinto de onde pendem braços também humanos, faz com que sejamos sempre temerosos, desconfiados e eternamente submissos às forças do além. Os adeptos vivem prestando-lhe oferendas, temem-na e adoram-na num paradoxo interminável de fascínio e temor. A sociedade em torno dela vive o caos que é a própria projeção da deusa, como podemos constatar em Calcutá onde Kali é a deusa protetora. Aí os indianos vivem o grande paradoxo do desenvolvimento científico e tecnológico do séc. XXI ao lado das  primitivas oferendas de sangue que a divindade exige.

         Uma deusa como Lakshmi, que é bela e considerada uma esposa ideal, quase sempre representada junto ao esposo, é a deusa da prosperidade, da riqueza e da pureza. Suas imagens mostram-na sempre com uma mão levantada abençoando. É também a deusa da sabedoria e das belas artes. A projeção social dessa deusa fará uma sociedade que valorizará o casamento e a família como um tesouro, a mulher será respeitada e adorada, em contrapartida será esperado muito dela. Porém, como na realidade Lakshmi é sempre reverenciada junto ao seu esposo Vishnu, que é o deus da preservação e da alimentação do Universo, a sociedade vishnuísta é equilibrada quanto aos relacionamentos de gênero, embora a mulher não detenha a mesma liberdade que o homem, ela é respeitada e reverenciada no lar. Vemos seus adeptos comemorando o casamento com festas fabulosas que levam três dias de duração, com muita fartura e alegria porque a tradição se preserva e uma nova família se constitui.

         Quando a concepção religiosa agrega a crença na reencarnação, as dores e perdas são muito mais suportáveis e aceitas do que dos outros tipos de crentes. Também quando a concepção religiosa crê que uma criança récem-nascida foi levada deste mundo porque Deus precisava de anjos, dá aos pais dessa criança uma suportabilidade em relação à perda que outros crentes jamais terão.

         Nossos deuses determinarão se nossas dores e sofrimentos são meritórios ou não. De acordo com nossa crença entenderemos e aceitaremos, ou rejeitaremos as doenças e a morte. O modo de crer determinará o grau de sofrimento e a cura.

         Jung dizia que todos os seus pacientes de mais de trinta e cinco anos tinham como raiz de suas enfermidades a perda daquilo que a religião dava a seus crentes, e, além disso, acreditava que ninguém poderia ser realmente curado se não conseguisse religar-se novamente, ou seja, ligar-se de novo com o sagrado. Jung criticava ainda o materialismo científico do Ocidente, como nossa grande doença social. Leonardo Boff, a partir de uma análise de Jung, diz que vivemos uma sociedade esquizofrênica, porque nos cinde naquilo que temos de mais profundo: as convicções científicas e as crenças religiosas.

         Se Mestre Eckhart diz que a qualidade de nossas vidas depende da qualidade de nossos deuses e das exigências de nossas almas frente à face de nosso deus, podemos concluir que a nossa religião, ou a nossa crença, determinarão a nossa saúde, a nossa relação com a morte e, portanto, com o viver. Jung acreditava que saber morrer é essencial para se saber viver, como Sêneca: "deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu te espantes, por toda a vida deve-se aprender a morrer.(...)Vive mal quem não sabe morrer bem"[5].

         Se Jung afirma que a enfermidade de todos os seus pacientes na metanóia[6] está vinculada a perda do sagrado, podemos afirmar que se é possível alguma saúde e qualidade de vida sem a experiência contínua de ligação com o sagrado, ela só é possível até a meia-idade, a partir dessa virada de "volta para casa", ou de "retorno às origens" é imprescindível que busquemos o sentido mais profundo de nossa existência.

         A filosofia, para Sêneca é comparável à medicina, enquanto uma cura o corpo a outra fornece os "remédios para a alma"[7]. Assim podemos nos lembrar que o maior terapeuta da alma de toda a história do pensamento existiu como um grande filósofo, muito antes de a psicologia haver se constituído: Sócrates. Esse grande sábio da Antiguidade, através da maiêutica levava seus interlocutores a buscarem no mais profundo deles próprios, no Self, a resposta para seus problemas e angústias. Como os órficos ensinavam: a alma conhece todas as respostas é preciso treinar a consciência para fazer-lhe as perguntas corretas.

         Essa esfera numinosa que é nosso Self corresponde ao atman hindu, é a centelha divina em cada um de nós. Participa da essência do sagrado, é a particularização da totalidade divina. Daí a importância do ensinamento órfico mais conhecido em toda a história da filosofia: "Homem conhece-te a ti mesmo", porém essa é a primeira parte do ensinamento que estava inscrito no frontispício de Delphos, porque ele assim continua: "E só então poderás conhecer os deuses".  Há uma relação de correspondência do particular para o universal, cujo processo de conhecimento é a indução. Aquele que quer participar da esfera mística e sagrada, da plenitude conferida pelo numinoso, precisa antes conhecer-se, o que não constitui tarefa fácil.

         Nietzsche dizia que era preciso inserir o risco em nossas vidas. Não o risco de inconseqüências, mas o de conhecer-se a si mesmo. Esse sim era o maior de todos os riscos para a consciência, que em confronto com os conteúdos sombrios[8] do inconsciente poderia ter sua lucidez perdida. Dizia ainda ser preciso dizer sim à vida. Quantas vezes adoecemos porque não dizemos sim às nossas vidas? Dizia também que devíamos nos afastar dos fracos e dos ressentidos para podermos nos tornar aristocratas, senhores de nós mesmos, super-homens, livres e alados.

         Essa atitude afirmativa, alegre, que prenuncia uma alvorada é o ensinamento de Nietzsche, um homem que sofreu dores e tormentos desde a infância e viveu os últimos anos de sua vida com febres, dores e delírios em conseqüência da encefalite herdada. Ainda assim nenhum filósofo superou-o na apologia a vida que também era uma apologia a morte: "Muitos morrem demasiado tarde e alguns, demasiado cedo. Ainda soa estranha a doutrina: ´Morre a tempo!´

         Morre a tempo: é o que ensina Zaratustra.

         Sem dúvida, quem nunca vive a tempo, como iria morrer a tempo? Antes não tivesse nascido! - É assim que aconselho os supérfluos.

         Mas também os supérfluos levam sua morte muito a sério e também a mais vazia das nozes quer ser quebrada.

         Todos dão importância à morte; no entanto, ainda a morte não é uma festa. Ainda os homens não aprenderam como se consagram as festas mais bonitas.

         Eu vos mostro a morte que aperfeiçoa, que se torna, para o vivo, um aguilhão e uma promessa.

         Da sua morte, morre o homem realizador de si mesmo; morre vitorioso, rodeado de gente esperançosa a fazer auspiciosas promessas.

         Seria mister aprender a morrer assim; e não deveria haver festa na qual um moribundo não consagrasse os juramentos dos vivos."[9]

         O processo de individuação, baseado principalmente nessa obra citada de Nietzsche, mostra que aquele que vivencia esse processo morre como um vitorioso, porque realizou o si-mesmo, atingiu o seu mais alto fim existencial. Sua morte deve ser celebrada, festejada por aqueles que a tomarão como exemplo de realização e plenitude, porque ele deixa a promessa de que é possível dizer sim a vida apesar da dor e do sofrimento que possam acompanhá-la.

         "A quem foi dado o privilégio do saber também foi conferido o dever de agir", esse é o imperativo kantiano, a ética da ação, do dever. O sofrimento tem estreita ligação com o eu. Quanto mais "eu" existir na minha vida mais sofrimento existirá. A felicidade implica em uma substituição progressiva do "eu" pelo "nós" e do "nós" pelo "todos". Quanto mais voltados estivermos para a dor do mundo menos energia devotaremos às próprias dores.

         Temos o privilégio de sermos portadores de uma razão incomensurável, para o bem e para o mal, para a plenitude e para o esvaziamento, temos o livre arbítrio para escolhermos entre uma coisa e outra, e isso constitui, sobretudo, em fonte de angústia. Ter escolhas traz angústia, gostaríamos de permanecer eternamente em estado infantil, inconsciente, e deixar que decidissem por nós, assim não viveríamos a culpa pelo erro, pelo pecado. Esse é o alerta dos existencialistas: a angústia das escolhas. O grande problema do ser humano é escolher dentre as possibilidades que se apresentam a ele, buscar realiza-las e leva-las a cabo para, assim, aliviar-se do peso e das responsabilidades que envolvem toda e qualquer ação. Essa colocação é claramente expressada nas obras de Kafka e Dostoïevsky, onde escolha e angústia caminham lado a lado.

         Para Heidegger, o mais importante existencialista, a experiência radical do nada chama angústia, no entanto, difere do medo e da preocupação da vida banal. É uma consciência e uma resignação de que estar-no-mundo é uma limitação, uma queda, uma privação, é tomar consciência de sua finidade. Heidegger arranca o ser humano de suas relações transcendentais, retira-lhe de um só golpe a esperança teleológica. O homem é um ser lançado ao mundo para realizar a possibilidade de sua existência, dentro de sua temporalidade que é sua existência, que em última análise emergiu do nada, é determinada pelo nada e também é um esforço para apegar-se ao nada.

         Sartre radicaliza Heidegger e leva sua filosofia às últimas conseqüências, ou seja, a experiência existencial é uma nulidade, um absurdo. Substitui a angústia de Heidegger pela náusea da sociedade humana, náusea da beleza ilusória da natureza e náusea de nós mesmos. Só Deus poderia dar sentido ao absurdo que é o mundo e o ser humano, mas para Sartre, Deus não existe. A seu existencialismo Sartre chama humanismo.

         E eu vos pergunto: é nessa humanidade que você acredita? Para você o mundo e toda a natureza, incluindo o ser humano e o si mesmo, são absurdos e sem sentido? Ao buscar a sua interioridade você encontra o vazio, o nada?

         É difícil aceitar a argumentação materialista quando nossa experiência íntima nos leva a partilhar uma experiência numinosa, onde encontramos um "totalmente outro" que nos resignifica dando-nos o contrapondo de nossa imanência, ou seja, é o próprio transcendente que encontramos no mais recôndito de nosso ser. Daí a importância da meditação e da oração apregoada pelos psicossomatistas modernos e por vários autores. Daí a experiência de Jung e de tantos seus pacientes.

         Importante salientar que essas experiências não são absolutamente carentes de respaldo científico. A nova física traz o princípio da incerteza e da indeterminação, a gama de possibilidades de ocorrências antes consideradas improváveis hoje se mostra absolutamente possível, dependendo das ondas de possibilidades quânticas e das superposições coerentes. Amit Goswami nos ensina acerca da não-localidade quântica e sua transcendência, corroborando cientificamente a idéia de sincronicidade em Jung.  Abre-se a perspectiva para a escolha, a intenção e a criatividade, elementos determinantes para a saúde ou a doença, a alegria ou a tristeza.

         Podemos fazer um paralelo desses componentes: escolha, intenção e criatividade com a função transcendente em Jung. Também ela é um elemento criativo que vem estabilizar o conflito entre as polaridades consciente e inconsciente, interior e exterior, trazendo um terceiro elemento que é o criativo. Assim também são nossos humores, nosso equilíbrio físico. Tudo depende da harmonia entre polaridades e o que determina esse equilíbrio é nossa escolha interior, nossa intenção e nossa criatividade. A cura é sempre um processo criativo, e nele devemos ser participativos, devemos fazer as escolhas certas, buscando a intenção correta e atuando criativamente em nossa homeostase.

         Jung fala da imaginação ativa como ferramenta de conhecimento interior. Vários autores descrevem a imaginação ativa como processo de cura e evolução espiritual[10], é certo que um elemento muito importante é acionado através da imaginação ativa, para o bem e também para o mal como no filme Laranja Mecânica e na obra de Kafka Metamorfose. Assim, a imaginação nos encaminha para a vida e para a morte, depende de nossas escolhas, de nossa intenção e criatividade.

         Alguns indivíduos precisam de fé para procederem às suas escolhas, para determinarem a sua intenção e para agirem criativamente, outros precisam de um saber, como Jung. Não falo do saber concreto e demonstrado, mas do saber experienciado fenomenologicamente, onde há uma intencionalidade implícita, uma epoché que nos possibilita vivenciar sem pré-conceitos, um partilhar interior que nos permite adentrar à essência da própria experiência e partilha-lo com os outros que possuem a mesma humanidade, o mesmo inconsciente coletivo. E nessa esfera de saber conquistamos um saber real, sem condicionamentos, não sujeito as intempéries do meio circundante e as animosidades alheias, assim também como a certeza de nossa natureza transcendente e significativa. É uma clareza de pertencer a algo maior que faz com que as intercorrências cotidianas sejam minimizadas na esfera do eterno, e que as dores físicas e psíquicas sejam contemporizadas na escala do infinito.

         O ser humano é psico-somático-social-espiritual, não só adoecemos no físico e no psíquico, mas a doença social é o maior câncer da modernidade na medida em que a falta de dignidade humana está aliada à absoluta carência de meios de sobrevivência, e em contraponto temos uma abundância supérflua no pólo oposto. Quem vive numa sociedade tão cindida em valores e posses, necessariamente vive uma situação esquizofrênica.

         Na esfera espiritual a nossa esquizofrenia deve-se à cisão entre ciência e espiritualidade, como pontua Jung, e como já afirmamos, o nosso materialismo científico gerou uma doença no Ocidente. Descartes separou o mental do corporal, priorizou um sobre o outro, e toda sociedade científica ocidental gerou uma compreensão da mente como epifenômeno cerebral, o materialismo científico venceu. Só algumas vozes levantaram-se contra essa visão de mundo dominante, e hoje muitas outras vozes reivindicam a esfera transcendente para aliviar a angústia existencial.

         O espírito capitalista unido à ética protestante também dicotomizou a sociedade em agraciados e desgraçados. O material e o espiritual fazem-se assim unidos pela mesma ideologia. Nos aproximamos com isso da visão retrograda de castas: cada um nasce na condição de seu merecimento, e nela deverá permanecer enquanto viver.

         Vivemos dicotomizados em quadrantes. Ken Wilber, em sua filosofia integral, mostra-nos que existem quatro quadrantes: o primeiro quadrante superior refere-se ao EU intencional, portanto subjetivo; o segundo quadrante superior refere-se ao ISTO, comportamental e objetivo; o terceiro quadrante inferior refere-se ao NÓS,  cultural e intersubjetivo; o quarto quadrante inferior refere-se ao ISTOS, que é o correspondente ao social e, portanto, interobjetivo. O ser integral é aquele que articula de forma harmônica todos os quadrantes. Fazemos isto? Integramos todas as esferas e quadrantes de nossa existência no mesmo nível de atenção e importância?

         As questões que se apresentam são bastante complexas, devemos imaginar o conflito dos psicoterapeutas frente a complexidade apresentada por seus pacientes. Mas é preciso não se iludir, só podemos levar o outro até onde chegamos. A maioria dos psicoterapeutas não pensa assim, sofrem de uma onipotência causada pela inflação do ego. Jung em A Prática da Psicoterapiaafirma que é preciso que os psicoterapeutas se transformem em médicos-filósofos, porque o conflito que está nos primórdios da existência humana é de natureza filosófica-religiosa. É a necessidade de ordenar o caos, latente em toda patologia física e ou psíquica, e para isso é preciso um mergulho no mais profundo de nosso inconsciente para, nele, buscar os recursos ordenadores, que são sempre de origem arquetípica. Esse é o ponto e o limite; "Ninguém é obrigado a ir além do que pode"[11]. Nesse momento deve-se estar pronto para reavaliar as próprias convicções, é preciso ter embasamento filosófico e religioso para lidar com conteúdos de natureza arcaica.

         As bases da estrutura psíquica são: ética e metafísica. Todas as outras questões estão a elas subordinadas. Quando uma pessoa age de acordo com sua moral religiosa e sua ética interior não sofre angústia e depressão. Ela tem o amparo de todo seu inconsciente. Ela tem o apoio de seu deus, e isso é o suficiente para que viva em harmonia. "Eis porque o objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento"[12]. Saúde física com tormento psíquico é pior do que doença incurável, é preciso uma postura ética frente a vida e a morte, só assim estaremos prontos para viver a plenitude do si-mesmo, independentemente da temporalidade que nosso corpo físico aguarda.

         É preciso uma atitude filosófica para o crescimento interior, sem compreendermos a natureza do ser humano não nos libertaremos do conflito cartesiano: "Sem nos envergonharmos das insuficiências do nosso diletantismo histórico, vamos ter que freqüentar mais um pouco a escola dos filósofos-médicos daquele passado longínquo, do tempo em que o corpo e a alma ainda não tinham sido retalhados em diversas faculdades"[13]. A química não cura a alma. O processo terapêutico, seja qual for sua abordagem, deve olhar para o todo do ser humano que se apresenta frente a ele.

         A homeopatia, como se sabe, trabalha a anamnese de maneira distinta da alopatia. Ela se preocupa com o holos a sua frente; a totalidade do ser humano com suas dores do corpo e seus conflitos da alma. Vejamos um exemplo em que o diagnóstico do indivíduo é  palladium: adolescente, com fome de atenção, sente-se incomodado, diminuído, baixa auto-estima, faz tudo para destacar-se, mesmo que para isso seja necessário descer da sua escala social e portar um visual  indolente, chega com freqüência ao sentimento de abandono e aí busca seu alívio nas drogas e/ou no álcool para fugir da frustração e angústia. É inquieto, irritável, agressivo, possui forte sentimento de rejeição, impertinente, maledicente e descontente com tudo.

         O que falta a esse indivíduo? Converter-se. Tornar-se filho de Deus. O remédio sozinho não faz milagre sem uma mudança de conduta, em termos de sentimento e relacionamentos. Quando um jovem se converte, a qualquer religião, e encontra um sentido que lhe transcenda e resignifique sua vida, acaba o sentimento de inferioridade, aumenta sua auto-estima, afinal agora ele é filho de Deus. O que pode ser superior a isso? Ele pertence a um novo grupo, possui novos horizontes, nova perspectiva de futuro, que vai, inclusive, além dessa vida.

         Com essa reflexão entendemos melhor o mundo atual, quando tantos jovens nos parecem palladiuns, pois vivem uma vida sem sentido preenchida pelas drogas, violência e intolerância. Porque nós, ocidentais, nos tornamos racionalistas, críticos, não demos a nossos filhos a possibilidade de um amparo transcendente, de uma iniciação religiosa verdadeira. Isso quer dizer, não adianta manda-lo ao catecismo se você não freqüenta a Igreja e vive ridicularizando toda atitude de fervor como ignorância. Se nós, os pais, não temos um sentido maior para nossas vidas, como podemos pretender que nossos filhos vivam com significado?

         Vejamos agora um indivíduo Colocynthis: está na meia idade, possui uma memória fraca, é deprimido, triste, grita de dor, é ansioso, tem cefaléia constante, tem indisposição para falar e se relacionar (mas não para se lamentar frequentemente), está sempre de mau humor, se ofende por tudo, e sofre de cólicas intensas que o levam a curvar-se sobre os joelhos, como em posição de fervor e súplica, posição essa que lhe alivia as dores. "Os indivíduos COLOCYNTHIS reativamente demonstram falta de sentido religioso ocasionado pela indignação e revolta dirigida ao ´criador`, que o expõe a humilhação ao lado das demais criaturas, fazendo-o dobrar-se e submeter-se às adversidades, fato que fere e sensibiliza a nobreza de caráter de COLOCYBTHIS, fazendo-o sofrer intensamente com isso. Há um ditado que diz: Os que não se aproximam de Deus pelo amor, aproximar-se-ão pela dor"[14]. Ou seja, sua consciência renega o Criador enquanto seu inconsciente o põe de joelhos para que ouça a Sua voz.

         Não ouvimos mais a voz Deus porque perdemos a humildade de nos ajoelharmos e nos aquietarmos, estamos muito ocupados com o mundo exterior para ouvir a voz do coração, a voz do self, ou a voz de Deus, afinal é tudo a mesma coisa.

 

 

 


[1] Cartas. Carta a Dr. Kristine Mann, 01-02-1945. Ed. Vozes. Vol. I. 2000.

[2] In Aniela JAFFÉ, L. FREY-ROHN e M-L. von FRANZ. A morte à luz da psicologia. Pág. 15

[3] Psicologia e Religião Oriental. P. 765

[4] projeções = processo automático pelo qual os conteúdos de nosso próprio inconsciente são percebidos como estando nos outros. Daryl SHARP. Léxico Junguiano.

[5] Sobre a Brevidade da Vida

[6] metanóia = conceito grego usado por Jung para designar a mudança de sentido na meia-idade, a alteração de rumo do exterior para o interior e a busca de harmonia e equilíbrio.

[7] Sobre a brevidade da vida. Pág. 18.

[8] Lembremos que Jung baseou seu conceito de sombra na obra de Nietzsche: O andarilho e sua sombra.

[9] Assim falou Zaratustra. Da morte voluntária.

[10] Exemplo: Gioia Panozzo. O Sol Semearei em minhas Terras. Ágora

[11]A Prática da Psicoterapia. Parágrafo.181

[12] IBIDEM . Parágrafo 184.

[13] Parágrafo 190.

[14] Carlos Brunini. Matéria Médica Homeopática.


Publicado nas seguintes categorias do Blog

Você respeita a Terapia Floral?Conheça mais!!!

Mande-nos uma mensagem

Nosso contato

Endereço

Rua Nunes Machado, 3051 - Centro
Casa A - CEP 80220-071 - Curitiba - PR
Veja no mapa

Mande-nos uma mensagem